terça-feira, 20 de outubro de 2009

Um artigo de Jaime Teixeira Mendes

.

A Qualidade da Democracia

O extenso editorial “O Preço da Nossa Liberdade”, saído no boletim da Ordem dos Médicos1 e assinado pelo actual presidente, mostra, além de muita presunção, o desrespeito para com os colegas que têm opiniões diferentes das dele.

A aceitação da crítica, a humildade e o respeito para com os outros é fundamental em Democracia.

No texto, o presidente vangloria-se de promover reuniões por todo o país, que finalizariam na chamada Assembleia-geral de Médicos, não deliberativa, a que alguém da mesa apelidou de brainstorming.

Contudo, os actuais Estatutos da Ordem não prevêem a existência desse órgão supremo do exercício da Democracia e, por esta razão, na reunião havida não se prepararam consensos nem se ouviram os médicos.

A obsessão em falar de Assembleia-geral de Médicos faz parte de uma prática de manipulação linguística que, de insistente que é, acaba por criar em qualquer indivíduo bem-intencionado um mundo mental deturpado.

Assim um “brainstorming” passa a chamar-se assembleia-geral, o oportunismo chama-se pragmatismo, o pobre chama-se carenciado ou pessoa de escassos recursos, a Ditadura chama-se II República, etc.…

Há cerca de dois séculos que procuramos melhorar a Democracia.

O nosso dever cívico, como cidadãos e médicos, é continuar a aperfeiçoá-la, alertando para os perigos de adulteramento, quer na sociedade em que vivemos quer nas associações a que pertencemos.

A definição de democracia, segundo Sir Henri Maine2, é uma forma particular de governo em que os governantes são simples agentes e mandatários dos governados e neste caso a censura é um direito, a origem da autoridade reside nos governados que a dão ou a retiram como julgam mais útil.

A crise da democracia é de carácter qualitativo e, já no século XIX, pensadores como Bemjamin Constant, em França, no fim do seu discurso no Athénée Royale de Paris em 1819, exortou os cidadãos a exercerem uma “ vigilância activa e constante” sobre os seus representantes e avisou: “O risco da moderna liberdade é que, absorvidos no gozo da nossa independência privada e na prossecução dos nossos interesses particulares, renunciemos com demasiada facilidade ao nosso direito de participação no poder político”.

Em Portugal, Magalhães Lima, no seu estudo sobre “A Democracia3”, publicado em 1888, escrevia, a propósito de eleições e democracia representativa: “(…) A história das eleições é conhecida. É sabido o que significa o alargamento do sufrágio como meio de alcançar uma justa distribuição do poder político. Há uma verdadeira capitalização política como a capitalização económica; desta resulta o agiota, daquela o empresário político, o nosso influente. A nação mais democrática do mundo, ou pelo menos apontada como tal, os Estados Unidos, é o melhor exemplo da significação que tem o direito de votar; ali o voto é uma mercancia como o algodão ou os cereais, o poder é para quem mais souber capitalizar (…)”.

Mais adiante, Magalhães Lima reflecte sobre a representatividade dos eleitos afirmando: “(…) O mandatário eleito pelos seus concidadãos por maioria de votos, sobre uma questão de princípios, não representa nem a minoria, nem todas as nuances da maioria; nada garante que ele compreenda ou não atraiçoará a vontade dos seus eleitores (…)”.

Outro dos perigos que ensombrava e ensombra a natureza da Democracia é a corrupção.

No seu estudo, Magalhães Lima diz: “A corrupção é o maior cancro dos governos populares; e, se não lhes é peculiar, encontra n’elles um terreno tão adequado que tem sido levantada às honras de systema politico”(…).” Erige-se a corrupção em systema politico, na descrença de todo o sentimento nobre e de todo o móbil d’acção que não seja um sórdido e insaciável egoísmo. Tão baixo desceu o nível moral das sociedades contemporâneas! 4 (…)”.

Para a melhoria da qualidade da Democracia, não devemos deixar que a única tarefa dos cidadãos ou dos membros de uma associação, seja ela profissional ou outra, se limite a ir às urnas de quando em quando, mesmo que regularmente, para eleger o governo e o processo de decisão seja confiado aos seus representantes.

Apenas para citar algo mais recente, recomendo a leitura de “The Economist” que, no Democracy Índex Mundial, relativo a 2008, revela que a democracia portuguesa está a perder qualidade, colocando-a agora no 25º lugar da tabela mundial. Segundo o articulista, o que poderá ter feito baixar esta avaliação da participação política foi a abstenção superior a 50% no referendo à despenalização do aborto.

Se analisarmos os actuais estatutos da Ordem dos Médicos, à luz da democracia representativa, constatamos que as minorias não têm voz activa nem participam nas suas deliberações. O comportamento da sua Direcção, como se pôde ver com a aprovação do Código Deontológico e da proposta de Carreiras Médicas, em que afastou os médicos do debate e das decisões, só contribuiu para o enorme desinteresse e alheamento da classe. O resultado é um aumento significativo da abstenção nos actos eleitorais, o que revela uma perda de qualidade democrática.

Está na moda, nos países desenvolvidos, a retórica do empowerment, que aponta para a necessidade de ouvir as pessoas e envolvê-las nos processos decisórios.

Fala-se muito na participação dos cidadãos, mas se esta participação não assume formas sólidas e minimamente organizadas, todos os grandes apelos ao empowerment não passarão de uma brincadeira. 4

As atitudes do Bastonário e do Presidente do Conselho Regional do Sul ao pressionarem membros da anterior Direcção do Colégio da Especialidade de Pediatria para este rever a sua decisão de não atribuição de idoneidade ao Serviço de Pediatria de Beja, são sinais evidentes de deficit democrático. Estas atitudes foram corroboradas pelo CNE, que resolveu atribuir a idoneidade formativa para Pediatria I ao referido serviço, ignorando o parecer técnico da Direcção do respectivo Colégio, o que originou a sua demissão. 5

A sobranceria e desrespeito por um parecer técnico de uma Direcção de um Colégio da Especialidade, escudando-se no seu poder decisório, desprestigia os Colégios e leva também ao desinteresse da maioria esmagadora da classe médica, que está patente na fraca participação nas votações para a eleição destes órgãos.

Os Colégios da Especialidade são a razão de ser da Ordem dos Médicos e as suas direcções eleitas devem ser o garante da qualidade técnico - científica dos serviços hospitalares, quer públicos quer privados, e uma das suas funções é a avaliação de idoneidade e capacidade formativas dos mesmos.

A eleição das Direcções dos Colégios pelos seus pares foi um acréscimo para a qualidade da Democracia na Ordem. Não deixemos que se regresse a um passado ainda recente. Não deixemos que voltem a ser nomeadas.

Jaime Teixeira Mendes

Chefe de Serviço de Cirurgia Pediátrica

(Aposentado)

Membro eleito da Direcção do Colégio da Especialidade de Cirurgia Pediátrica

Bibliografia

  1. P.Nunes , Boletim da Ordem dos Médicos, Ano 25 – Nº 103, Julho/ Agosto 2009
  2. H.S.Maine, Essais sur le gouvernement populaire, E.Thorin, 1887
  3. J.M.Lima, A Democracia, Estudo sobre o Governo Representativo, Tip. Silva Teixeira. Porto 1888
  4. P.Ginsborg, A Democracia que não há, ed. Teorema, Agosto 2008
  5. A.Costa, Fundamentos para uma Demissão, Acta Ped. Port.,Vol.40, Janeiro/Fevereiro 2009
.

Comunicado do MAOM

.

A Gripe A e as banalidades de Bastonário

Infelizmente continuarmos a assistir a um desempenho público pouco prestigiante por parte do ainda Bastonário da Ordem dos Médicos, Dr. Pedro Nunes.

Podíamos pensar que seria a altura de tudo fazer para facilitar o fim de mandato com dignidade não só para o próprio mas principalmente para os médicos e para a medicina nacional. No entanto tal não é possível.

A necessidade premente de intervir pessoalmente e individualmente tem levado este bastonário, ferido de morte por comportamentos pouco éticos, a emitir opiniões banais sem qualquer suporte científico em nome de todos os médicos sem ouvir os especialistas e conhecedores desta como de outras matérias. Será que os colégios de especialidade e as respectivas direcções de por exemplo da Saúde Pública, da Medicina Interna, da Infecciologia e da Pediatria comungam das displicentes declarações à comunicação social de que a ameaça da gripe A é irrelevante porque é pouco letal.

Independentemente da análise que possa ser feita da valoração relativa da ameaça da gripe A no contexto de muitos outros riscos para a saúde que continuam presentes na sociedade portuguesa importa que a OM saiba acompanhar, de forma cientificamente evidente e esclarecedora para todos os médicos, as políticas de saúde apresentando contributos pertinentes e atempados.

Para o Movimento Alternativa para OM este comportamento só traduz a displicência, a confusão e as contradições que reinam na direcção da OM e justifica o renovado apelo para a conjugação ampla de esforços dos médicos para a rotura com as práticas desqualificantes e eticamente reprováveis de dirigentes nacionais como Pedro Nunes e outros que têm sido cúmplices dos seus desmandos.


Lisboa, Outubro de 2009

Carlos Silva Santos

Jaime Teixeira Mendes

.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Exclusividade dos médicos

pelo Dr. Jaime Teixeira Mendes

Em nenhum país desenvolvido a promiscuidade entre sectores público e privado foi e continua a ser tão grande como em Portugal.

É curioso que já em 1939, numa conferência proferida na Liga de Medicina Preventiva e Social, o representante da Fundação Rockefeller dizia: “Repito o que já atrás disse, e que é de importância, o pessoal de serviço de saúde pública deve trabalhar em “full-time”, deve entender-se que o funcionário não pode ter outro emprego nem ocupação remunerados, tanto oficial como particular (…). Este sistema (…) já foi reconhecido também em Portugal pelo actual Governo (…)”. (1)

Esta fundação, que se propunha fazer a formação de técnicos portugueses na área de saúde pública nos Estados Unidos e Canadá, exigia no acordo que os bolseiros trabalhassem em exclusividade. Isto há mais de 70 anos!!!!

Nessa época e durante muitos mais anos, nos hospitais e noutros serviços de saúde, os médicos recebiam uma “gratificação” pelo trabalho matinal e o dinheiro para o seu sustento e da família era realizado na chamada clínica livre ou “pulso livre”, segundo a expressão célebre do Ministro do Interior Trigo de Negreiros, que à época tutelava a Saúde.

A filosofia durante a ditadura era esta, a mesma do século XIX dos países industrializados da Europa e das Américas, ou seja, os médicos aprendiam nos hospitais dos indigentes e por isso praticavam um trabalho benemérito sempre com a esperança de na clínica livre auferirem bons proventos.

Esta mentalidade, apesar das transformações ocorridas após o 25 de Abril (Serviço Nacional de Saúde, etc….), ainda subsiste nalguns responsáveis pela tutela.

Quando regressei da Suíça, em plena fase revolucionária, ainda tive a ilusão que a separação entre o público e o privado fosse efectiva.
Pura ilusão. O lobby dos chamados barões da medicina estava bem instalado. Os mais conservadores nem queriam ouvir falar na medicina estatizada ou organizada e os mais progressistas diziam que assim se iria provocar a fuga dos melhores médicos para o privado.

Medo atávico dos responsáveis pela Saúde em Portugal. Noutros países não existe este medo da saída de médicos para as clínicas privadas. A história da Medicina na Europa está cheia de exemplos de profissionais prestigiados que ao terem de escolher, optaram pelo exercício da sua arte em clínicas privadas, o que nunca pôs em causa a continuação dos serviços públicos onde trabalhavam.

Ainda hoje esta situação mantém-se para gáudio e espanto até dos nossos vizinhos. Numa entrevista ao El País, um dos muitos médicos espanhóis a trabalhar em Portugal manifestava os seus elogios ao SNS, afirmando que este oferecia formação superior e ainda permitia trabalhar no público e no privado.

Os sucessivos governos democráticos também não ajudaram, nem ajudam, à separação público/privado e à opção pela exclusividade no SNS por parte dos médicos, ao pagarem salários baixíssimos, por um lado, e ao não oferecerem condições para que os diversos centros se desenvolvam como verdadeiros marcos de referência a nível nacional, por outro.

A última declaração da Srª Ministra da Saúde, equacionando a hipótese de todos os médicos em trabalho no SNS adoptarem o regime de exclusividade, só pode ser considerada demagógica, porque vem ao arrepio de todas as propostas dos seus antecessores Luís Felipe Pereira e Correia de Campos. Como se sabe, estes seguiram uma política neoliberal, imposta pela Europa, numa cegueira de privatizações. Como tem de haver sempre uma particularidade lusitana, o neoliberalismo apresenta-se com o toque anárquico permitindo o nacional porreirismo.

Se não, vejamos:
- Facilitou-se e incitou-se à reforma de médicos com idades inferiores a 60 anos, para depois os contratar nos mesmos hospitais, através de empresas de prestação de serviços, a um preço/hora três vezes superior ao que recebiam antes da reforma (um médico a trabalhar no hospital recebe entre 12 a 19 euros/hora, consoante o regime de 35 horas ou de 42 horas; o mesmo, contratado em prestação de serviços, recebe entre 40 a 60 euros /hora).
- Os médicos em formação (internos da especialidade) estavam há uns anos com horários de 42 horas/semanais. Em exclusividade passaram a estar com horários de 35 horas, sendo-lhes ainda permitido trabalhar noutras instituições, nomeadamente trabalho mercenário noutros locais à exclusão do seu.
- Estabelecem-se horários para os médicos hospitalares de 28, 35, 40 e 42 horas semanais.
- Permite-se generosamente as licenças sem vencimento para se poder fazer uma experienciazinha só no privado, com a retaguarda assegurada no público.
- Suspendem-se as carreiras médicas e congelam-se os salários.

Acabar de uma vez com a promiscuidade entre o público e o privado é uma medida de interesse nacional e que ficava bem a um governo socialista.

Porquê esperar mais? Quais são os medos? Fuga de médicos para o privado e, consequentemente, falta de médicos, são argumentos falaciosos para justificarem a falta de medidas.

Há falta de médicos em Portugal?
Questão shakespeariana que os nossos governantes não resolvem e que as nossas estatísticas não dão resposta.

Os dados existentes são contraditórios e pouco fiáveis.
Para a OMS, em 2004, Portugal dispunha de 340 médicos/100.000 habitantes, muito próximo da média europeia. (2)
Os dados fornecidos pela Ordem dos Médicos não são fiáveis, porque nas últimas eleições para a Ordem detectaram-se, há primeira vista, inúmeros médicos já falecidos que constavam das listas eleitorais.

Um levantamento sério carece de ser realizado e deve incluir não só o número como a distribuição regional e por especialidades dos médicos.

Deve ter em conta a resposta às seguintes perguntas:
- Todos os licenciados em Medicina vão para o SNS? Quantos vão para a indústria farmacêutica, quantos vão para a investigação, quantos desistem de exercer a profissão?
- Dos licenciados no estrangeiro, quantos irão regressar?
- Dos médicos inscritos na Ordem (inscrição obrigatória), quantos exercem efectivamente medicina no sector público ou/e no sector privado?
- Com os meios de comunicação hoje existentes (Telemedicina, Cirurgia e Anestesia Robótica, etc…. ) será que haverá falta de profissionais?
- Será que muitas das tarefas hoje realizadas por médicos não poderão ser realizadas por outros profissionais?

“Centenas de médicos pedem licença sem vencimento. O problema não é tanto a quantidade, mas a qualidade dos médicos que saem do público para o privado” (3).
“Médicos fogem às centenas do SNS” (4).
Estas e outras frases, transmitidas à exaustão pelos media, não correspondem à verdade.

Calcula-se que em Portugal haja 24 mil médicos que exercem a sua profissão na esfera do SNS e foram cerca de 800 a abandoná-lo. Em linguagem castrense direi que os que abandonaram os serviços públicos foram alguns coronéis e capitães; os generais ficaram, bem como a maioria dos alferes e a totalidade dos soldados e como todos sabemos sem estes não se ganham guerras.

Mas se algumas medidas não forem tomadas, a ilusão de um Eldorado fácil e a perspectiva de novos desafios pode originar uma sangria maior de quadros dos hospitais públicos com a destruição de alguns serviços.

Assim, é necessário:

- A aprovação rápida das carreiras médicas, com aumento salarial e com diferenciação técnico profissional por meio de provas isentas e sem compadrios.
- A formação de internos, com contratos em regime de 42 horas semanais e em exclusividade, em centros idóneos de preferência universitários. Esta idoneidade deve ser atribuída, anualmente, pelos colégios de especialidade da Ordem dos Médicos, sem interferência de órgãos dependentes do Ministério da Saúde.
- O estabelecimento no SNS de contratos colectivos de trabalho (os incentivos são outro logro em voga) com um único horário semanal.
- A existência de uma Associação profissional que exija qualidade aos centros de formação e competência aos formandos em fins de especialidade.

Antes de abrirmos mais faculdades de Medicina, construirmos mais hospitais ou centros de saúde - ou seja antes de decidir - é preciso conhecer as realidades e necessidades do país, encarar os desafios que se irão pôr aos novos médicos no século XXI e depois planear, planear, planear e ter a coragem de tomar medidas, mesmo que sejam impopulares.
Jaime Teixeira Mendes
Chefe de Serviço de Cirurgia Pediátrica
Membro da Direcção do Colégio da Especialidade de Cirurgia Pediátrica da OM
Membro da MAOM


_______________________
Notas
1. Algumas Considerações sobre saúde pública. Conferência realizada pelo sr. Dr. Roll B Hill, ilustre delegado em Portugal da Rockefeller Foundation, no dia 4 de Março de 1939, promovida pela Liga Portuguesa de Profilaxia Social. Pg. 9, separata VIDA E SAÚDE, órgão cultural da Assistência aos Tuberculosos do Norte de Portugal, 4/3/1939!

2. WHO, European HFA Database, 2007

3. Público 24/4/07

4. Diário Noticias 07/04/08

terça-feira, 1 de julho de 2008

Artigo do Prof. Doutor Carlos da Silva Santos

As carreiras médicas revisitadas em tertúlia

No passado dia 17 de Junho, o Conselho Regional Sul da OM, por intermédio do seu Vice-Presidente, colega Álvaro Beleza, promoveu na sede nacional uma «tertúlia» revisitadora das Carreiras Médicas.
Ocorrem-me três ou quatro notas sobre este conclave pluralista, multifacetado, com colegas de diversas sensibilidades e, muito particularmente, vindos de diferentes práticas profissionais e como tal defensores dos interesses correlativos.
Foi evidente que as novas estruturas privadas de saúde dos três principais grupos financeiros nacionais apresentam uma grande força e os colegas dirigentes destes novos serviços transmitiram, de forma insistente, as suas pretensões/necessidades de recrutamento não só de profissionais dos serviços públicos mas também de organizarem, à sua maneira, a formação de base dos novos quadros para a sua produção super especializada. Têm pressa e se a OM não corresponder não se comprometem a esperar. Ao evocarem a santa liberdade de seleccionar e contratar quadros não receberam o apoio da restante audiência e ouviram mesmo remoques de que são devedores ao estado da formação dos seus profissionais, que o complexo personalista do contratante da empregada dos pequenos nichos de mercado não é paradigma aceitável de garantia de qualidade em organizações diferenciadas e, para os médicos e para a OM, não é aceitável que a diferenciação técnico científica não seja una, independente da natureza da propriedade dos serviços de saúde.
A segunda nota relevante foi a verificação que a generalidade dos presentes reconhece, após verificação no concreto, que a destruição das carreiras e a introdução do regime de contrato individual tem sido um desastre na organização dos serviços. Tal diagnóstico confirmado por quem gere os hospitais empresas só realça a justeza dos avisos feitos por muitos de nós de que a produção em saúde, e não só hospitalar, tem de ser cooperativa e hierarquizada em saberes e competências facilitadas pelas carreiras de mérito.
Terceira nota relevante foi o consenso generalizado de que a OM está atrasada na reflexão alargada e na elaboração de propostas sobre as carreiras médicas na sua componente técnico científica. Mais se confirmou o sentimento de que a actual organização e capacidade de intervenção das direcções (pese embora a boa vontade de muitos colegas) e dos plenários de colégios de especialidade está muito aquém das necessidades. Acrescentei que é preciso uma mudança radical na estruturação e nas competências efectivas dos colégios a par da remodelação dos estatutos da OM. A participação dos colegas não se impõe nem se decreta constrói-se democraticamente transferindo responsabilidades, valorizando os contributos individuais e generalizando a comunicação inter pares.
A riqueza e pluralidade das intervenções mostraram o caminho a seguir. É preciso mais discussão e mais alargada, com liderança mas sem pressa em fechar ou limitar as conclusões. Uma tertúlia não faz a primavera tanto mais que, no encerrar da mesma, o Bastonário teve a oportunidade de enviar uma mensagem que metodológica e politicamente vai à revelia desta iniciativa. «Temos, dentro de dias, o código deontológico aprovado e, depois do verão, os colegas terão a oportunidade de o ratificar»
O MAOM (Movimento Alternativo para a Ordem dos Médicos) continua activo e participando está a construir o estatuto pluralista de oposição porque pugna.

Junho de 2008
Carlos Silva Santos

Debate na OM

MOVIMENTO ALTERNATIVA PARA
A ORDEM DOS MÉDICOS

Na Ordem dos Médicos

Debate sobre
o Código
Deontológico
- dia 3 de Julho às 21 horas
- na sede da OM em Lisboa


«O nosso Código Deontológico está a ser revisto em privado pelo grupo restrito dos actuais dirigentes da OM que se preparam para, a breve prazo, nos apresentarem uma versão final para a qual não nos ouviram. As nossas opiniões não contaram. Querem deixar-nos somente a tarefa importantíssima de estar de acordo.»
Prof. Doutor Carlos da Silva Santos

Por isso, vamos fazer um debate
na Ordem dos Médicos sobre esta matéria.

Oradores convidados:
- Dr. Ramon de La Féria, cirurgião do Hospital de Cascais,
- Prof. Doutor Miguel Oliveira e Silva, Professor de Ética Médica e Filosofia do Conhecimento da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e Membro da Comissão Nacional de Ética para as Ciências da Vida.
- Prof. Doutor Rui Nunes, Professor Catedrático de Sociologia Médica / Bioética; Director do Serviço de Bioética e Médica da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e Membro da Comissão Nacional de Ética para as Ciências da Vida.


Contamos com todos os colegas que puderem participar!

terça-feira, 27 de maio de 2008

A saúde da visão e a cegueira da direcção da OM

Pelo Prof. Doutor Carlos da Silva Santos

Após as últimas eleições, infelizmente, nada mudou na direcção da Ordem dos Médicos. A prática preconceituosa autocrática de opinar, sem estudar ou reflectir ou sequer ouvir os médicos, sobre os graves problemas de saúde e de doença das populações portuguesas é uma péssima rotina a que o actual Bastonário nos habituou.
A intervenção do Dr. Pedro Nunes e do seu acólito para a oftalmologia, colega Esperancinha, a propósito do escândalo público da rotura de cuidados oftalmológicos no nosso país, revelada pela procura externa de cirurgias e pela intervenção de colegas estrangeiros em Portugal, é uma vergonha para a classe médica e denota falta de seriedade, carácter e sentido ético.
A OM tinha e tem a obrigação de intervir na definição da política nacional de saúde e nas políticas sectoriais como é o caso da saúde da visão e, consequentemente, tem a obrigatoriedade ética de participar de forma proactiva no diagnóstico de situação das necessidades de cuidados de saúde e de apresentar atempadamente propostas a todos os níveis técnico-científicos e, em particular, sobre os recursos médicos, sua formação e actualização.
Na perspectiva neoliberal de desmantelamento em proveito de alguns do SNS, a leitura é feita de uma forma prosaica. O mercado nacional da doença oftalmológica instalada sofreu um grave acidente ou perturbação com a intromissão de novos produtores de cuidados externos e vindos de fora, o que levou ao abaixamento dos preços e quebrou a estrutura instalada abrindo a porta do negócio a outras entidades como as Misericórdias que se propõem fazer nova rebaixa nos preços. É concorrência - dizem estes senhores.
E o bem público da saúde da visão dos portugueses não merecia outra postura ética?
A política de saúde da visão não existe em Portugal e a responsabilidade primeira vai para os governos e seus gabinetes ministeriais da saúde. Trata-se de uma problema magno da nossa sociedade que se estende desde a saúde infantil e escolar até à saúde dos idosos, passando pela saúde da visão dos diabéticos e dos trabalhadores. Como problema abrangente ao longo da vida não é necessariamente exclusivo dos oftalmologistas ainda que a estes caiba o papel principal. A OM deveria dar um contributo essencial à definição e aplicação de uma política nacional da visão ao juntar diversas especialidades que, conjuntamente, poderiam concorrer para estudar, propor e acompanhar as saídas necessárias para o problema. Desde a Pediatria, à Saúde Pública passando pela Medica Interna e Medicina do trabalho todos podem e devem apresentar os seus contributos conjuntamente com os oftalmologistas. De notar que neste campo existem outros profissionais como enfermeiros e técnicos especialistas que em equipa organizada, não paternalista, podem dar um contributo indesperdiçável.
Que fizeram os dirigentes da OM neste campo como noutros? Nada. Desde há muito tempo que esta especialidade é insuficiente nos serviços públicos não só no atendimento em consulta como nas intervenções técnicas mais diferenciadas sem alguma vez ter sido feito algum estudo ou proposta de alteração. Desde há muito tempo que é do conhecimento geral a baixa produção da actividade corente de muitos serviços de oftalmologia sem qualquer denúncia ou contestação por parte dos colegas. Desde há muito que é conhecida a leitura política de que a escassez de profissionais associada ao fraco desempenho institucional era favorável ao exercício privado complementar por parte de diversos oftalmologistas.
Perante algumas denúncias públicas intempestivas de baixo desempenho institucional dos oftalmologistas nos últimos anos os actuais dirigentes da OM com alguns colegas do colégio de especialidade intentaram, já cilhas passadas, e em jeito de desculpa de mal pagador apontar as múltiplas dificuldades e deficiências reais existentes nos serviços públicos.
É escandaloso que o programa de vigilância da saúde da visão, dos mais de 300.000 mil diabéticos, definido há anos esteja por executar em grande parte do país. É escandaloso que apesar do valioso contributo dos serviços privados que prestam mais de 60% dos cuidados oftalmológicos, os serviços públicos não respondam às necessidades, neste caso das restantes, dos doentes com maiores dificuldades de acesso.
O problema da visão na escola e no trabalho, na sua fase de abordagem primária, muito dificilmente tem saída para um encaminhamento especializado no sistema público.
Nos cuidados primários de saúde o número de especialistas variou de 24 para 21 entre 2000 e 2006. Nos hospitais do continente o número de oftalmologistas tem baixado continuamente neste milénio. Dos 461 existentes em 2000 descemos para 416 em 2006, menos cerca de 10% (-45), no entanto a produção de consultas externas progrediu em mais de 25 % passando de 484.446 em 2000 para 607151 em 2006 (+122705), o que temos de reconhecer é um progresso relativo notável. Desconhecemos se estas duas tendências se mantiveram no ano de 2007.
Vendo mais em pormenor, verificamos que em 2000 nos hospitais centrais, nos distritais e nos especializados o número de consultas ano por médico rondava as mil, 989, 1152 e 1063 respectivamente. Cerca de 5 consultas dia, 25 semana, para 200 dias de trabalho ano.
Já em 2006 o número de consultas por ano e por médico subiu mas de forma desigual nos hospitais centrais, distritais e de especialidade com 1362, 1758 e 1066 respectivamente. De notar que os hospitais distritais são quem perde mais oftalmologistas (-32) e mais aumenta a produção, 9 consultas/dia, 45/semana por especialista, enquanto os hospitais da especialidade ganham mais 12 profissionais nestes sete anos em estudo e não alteram o ritmo da produção em relação ao ano 2000.
Como sair da presente situação sem obrigatoriamente premiar os responsáveis directos pelo estado actual de coisas e com uma visão estratégica, pertinente e adequada.
Primeiro há que criar as condições organizativas e técnicas para aumentar radicalmente a produção em oftalmologia. Soluções mais ou menos taylorisadas, de produção em cadeia com economias de escala, e o reforço tecnológico podem e devem ser analisadas.
Como se vê os nossos serviços públicos podem e devem aumentar a produção com melhorias internas de efectividade. As tentativas de atacar as listas de espera com incentivos à produção extraordinária nos serviços, premiando os responsáveis pelos atrasos, mostra o passado recente, que nem sempre deram o resultado esperado e só desorganizaram a produção regular.
Neste momento o SNS chegou a um ponto de estar aprisionado também no campo da saúde da visão pelos prestadores privados e a OM parece capturada pelos interesses de alguns médicos e dirigentes da OM.
Como movimento Alternativo tudo faremos para denunciar a presente situação e contribuir para a defesa da medicina, da ética profissional e da qualidade e pertinência dos cuidados necessários também no campo da saúde da visão.

Pelo MAOM (Movimento Alternativo para a Ordem dos Médicos)
Carlos da Silva Santos